De Médico para Médico

Colunistas médicos abordando distintos temas


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Publicado por Dr. Marcio Duarte

Um castelo chamado hospital

Se existe um lugar no mundo onde o tempo parou - milagrosamente -, este lugar fica na França, entre a Bretanha e a Normandia, sem nada em volta, por vezes cercado pelas águas, por vezes cercado pela terra. Este é o castelo de Saint Michel, lugar mágico, que guarda na sua apoteótica estrutura uma espécie de solidão redentora, imune ao tempo e cravado na paisagem mutante, sempre alí: estático, imposto, óbvio, claro, absolutamente lindo e quase santo. 
 
Sobre a minha emoção ao cruzar a estradinha que liga o isolamento do castelo ao resto do mundo? Bem, nessas horas, a gente se vê tomado por uma razão aristotélica e descobre que todo médico vive por "diganosticar" tudo que vê e sente. Médico é um bicho excêntrico, ciente da fragilidade das coisas, ciente da fragilidade do homem, e por isso mesmo, sempre, um melancólico em potencial, capaz de elaborar as leituras mais absurdamente inespecíficas, cheio de arrogância e exatidão matemática, tal qual um residente hipertrofiado avaliando as possibilidades que cercam a presença de sangue oculto nas fezes. 
 
Pois bem, para mim, aquele castelo era a mais simples tradução metafórica e viva de um hospital moderno Brasileiro. Me senti íntimo - quase um nativo - das paredes espessas, do isolamento no topo da colina, do poder de transformação e da beleza em nível elevado. O que circunda o Saint Michel - o castelo em forma de hospital - faz sentido para os visitantes, faz sentido para os estranhos, para os pacientes, mas para o senhor castelo, o próprio em pedra, o que está em volta dele é só um detalhe incapaz de mudar suas formas, sua grandeza, seu devir na eternidade. 
 
Fui caminhando e pensando: ora bolas, o hospital é vítima e algoz de si mesmo. Fecha-se para o mundo como se não pudesse padecer ao tempo dos mortais. Que pena! Desprezar o tempo e a transformação das coisas te faz imortal... e ultrapassado.
 
Mais, especificamente além, passada a estradinha de acesso e já perto das pequenas casas no pé do castelo, me dei conta do espirito de inovação pulverizado pelo globo e que esbarra nas paredes dos hospitais, entre outras razões, pela natureza quase intransponível dos departamentos de TI hospitalar. 
 
Os departamentos de TI, antigos CPDs, em muitos e muitos hospitais continuam a ser antigos CPDs, encarando os ventos de inovação como apenas esforço adicional em meio ao contexto já cultural de sobrecarga das equipes, quase sempre reduzidas. Os profissionais de TI hospitalar gastam quase todo o tempo de trabalho em atividades de suporte operacional, nível zero, sem pensar, sem questionar, sem sonhar com melhorias de serviço e de produtividade. Por isso mesmo, estes profissionais acabam virando vítimas do próprio conto de fadas, afinal, na velocidade cósmica que vivemos, ficar trabalhando em um ambiente "nível zero" por poucos anos já condena o analista de sistemas ao limbo. Além disso, o jovem analista inquieto e proativo, quando entra no hospital, rapidamente descobre uma dura realidade: "ou deixo este mercado de saúde, ou me desatualizo em pouco tempo".
 
Por outro lado, infelizmente, para muitos, ainda existe a falsa idéia de que as inovações, as "nuvens", a otimização dos processos tecnológicos, tudo isso, seja ameaçador para o emprego dos profissionais de TI nos hospitais. Quanta bobagem. As equipes de TI nunca tiveram tantas oportunidades para sair do ostracismo da gestão e ocupar espaço estratégico em todas as áreas da assitência, afinal, quem ainda não percebeu nas atividades de inovação e TI o maior catalisador de melhoria dos processos, certamente, ainda vive em algum mundo psicológico de cavaleiros, armaduras, bôbos e magos. 
 
Voltei. Eis que agora já estou nas dependências do castelo e surpreso com a imponência real. Percebo então que a resistência das TIs ao que existe de inovação além dos limites da instituição, é só um sintoma da fragilidade corporativa destes mesmos hospitais. Me pego novamente diagnosticando o mundo, e quem sabe chamando a TI e alguns gestores de "sangue oculto"... ou de "fezes". 
 
Quantos gestores hospitalares entendem a inovação como elemento fundamental e estratégico para alcançar os resultados? De que forma um jovem estudante com espirito inovador e cheio de gás pode ter acesso ao olimpo das estruturas hospitalares? Respondo estas perguntas em meu íntimo, com o olhar perdido na linha do horizonte. Me certifico que as TIs são a ponta do iceberg, ou melhor, são a ponta da torre e para onde os raios tendem cair com maior frequência. Pobre das TIs: médicos mal sabem da importância dos processos, médicos ignoram o novo, médicos só usam o facebook e o word, médicos são arrogantes, gestores são míopes e mesmo assim, no fim do conto, jogo a culpa - em forma de raio - na coitada da torre das TIs, sempre tão escanteadas pelos senhores feudais de capa branca. Ahhh... senhores de capa branca: vocês precisam mesmo de um castelo. 
 
Atualmente, enquanto todos os ramos de atuação se esforçam para capilarizar suas estruturas de inovação, enquanto todo mundo tenta estar cada vez mais aberto aos projetos externos, aos "nerds" solitários que pensam, pensam e pensam, muitos hospitais entendem a tecnologia apenas como ferramenta operacional, ortodoxa, fixa, geralmente atrelada e exclusiva aos grandes players, quase intocável ao gigantesco coletivo de pequenas iniciativas com as suas soluções inovadoras e que se espalham pelas universidades, pelas pequenas empresas, pelos parques tecnológicos, etc.
 
É incrível, mas ainda existe por aí o orgulho em dizer que "hospital não é local para testes". Meu Deus, quanta mente medieval. Se o hospital não for o lugar para se inovar em processos de saúde, onde mais será? Onde mais se poderá testar e buscar novas soluções para a educação médica continuada, para a comunicação efetiva, para a auto-gestão das equipes, para a otimização das salas cirúrgicas, para a melhoria da percepção do paciente em relação aos médicos, onde mais? 
 
Felizmente, uma enorme mudança de concepção já está acontecendo; suave e irreversível. Lentamente as armaduras estão virando latas de conserva, a inovação deixa de ser invenção e passa a se tornar esforço necessário. Pouco a pouco os ares de saúde corporativa ganham o frescor inerente da modernidade nos ambientes que orbitam as gestões, e as oportunidades de melhoria assumem o papel de protagonistas onde o pragmatismo sempre foi uma desculpa para a ineficácia. 
 
Saint Michel foi uma das mais espetaculares experiências da minha vida, mas, neste mesmo dia marcado pela minha primeira visita ao castelo, não deixei de dormir numa cama quentinha, dentro de um quarto aquecido, com wi-fi, TV de tela plana e banheiro, numa rua asfaltada e bem iluminada do Quartier Latin. Nada melhor do que ser atual e gostar das inovações.

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