De Médico para Médico

Colunistas médicos abordando distintos temas


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Publicado por Dr. Tas

Caso 1 - Norma

A primeira vez que Norma entrou em meu consultório, ela impressionava bela beleza , timidez, apresentando uma certa fragilidade, que exigia de minha parte um esforço para manter a ética e distância necessárias. Estávamos em 1995 e o nome antigo não combinava com os seus 33 anos, tampouco a sua postura que se descolava da maturidade esperada aos 30 anos.

Já no divã, enquanto falava sobre sua infância, percebi uma fixação reincidente a um “castiçal” que se encontrava na escrivaninha ao lado. O curioso é que ela discretamente se afastava na direção oposta enquanto os seus olhos fixavam o objeto. No início, tive dúvidas se havia interpretado corretamente, mas no decorrer das sessões o comportamento se repetia, o que me intrigava.

Em determinada sessão, Norma chorou copiosamente ao relatar uma passagem de sua adolescência quando aos 13 anos faleceu seu irmão mais velho, Rodolfo, em um trágico acidente de carro, o único a falecer entre as 5 vítimas da colisão. O mais intrigante é que quando questionada sobre quais os familiares que estavam a seu lado no momento da notícia, ela citou um a um:

- A mãe, a Sílvia (irmã) e o pai - aí houve um exagero na intensidade de suas emoções após citar o pai. Minha intuição dizia que tinha algo ali.

No decorrer de nossas sessões, sentia-me cativado e apiedado por aquela garota sofrida, intensificado após os relatos sobre o seu primeiro namorado, quando já tinha 17 anos:

- Amava o Fred, ele era sorridente, expansivo, carinhoso comigo, mas não conseguíamos ter relações, eu queria, juro que queria, mas não conseguia.

- Mas esse receio no primeiro envolvimento sexual é comum, até esperado - interpelei.

- Mas não foi minha primeira vez.... - seguiu-se uma reação inesperada de choro copioso e repetição incessante “Não foi minha primeira vez...”, culminando com a fuga do consultório, em choro abundante, abandonando a análise.

Fiquei reflexivo, consultei as minhas anotações e as peças se encaixaram. Norma havia sido abusada, possivelmente pelo pai. Este era o motivo da resistência a entrega sexual, a fixação fálica com repulsa no episódio do castiçal, e talvez o exagero do seu choro quando citou a presença do pai no momento da notícia da morte do irmão. Ali, além da perda incontestável do familiar próximo, estava representado que estaria ainda mais desprotegida, mais sozinha...com o seu pai....

Norma abandonou a terapia, não mais a vi..... por 3 anos....quando retornou, mantendo as barreiras para se relacionar com o sexo oposto.

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