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Colunistas médicos abordando distintos temas


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Publicado por Dr. Marcio Duarte

Big Data: uma revolução tão poderosa quanto a penicilina

Em julho de 1997, em um artigo que abordava a preocupação com o aumento no número de dados arquivados nos computadores, dois pesquisadores da NASA ( Michael Cox e David Ellsworth ) utilizaram pela primeira vez o termo "Big Data". Nesta época, já tinhamos a  internet, o armazenamento de dados totalmente digitalizados ( BI ) e os relatórios que integravam informações de diversas fontes diferentes já eram realidade em diversas corporações. Mas, alto lá, antes de qualquer coisa, que diabo é "Big Data"?
 
Para entender o conceito de "Big Data" e a sua importância estratégica em qualquer discussão atual que envolva temas de inovação, seria interessante saber como chegamos até o artigo da NASA, onde as possibilidades do "big data" já facilitam o nosso dia-a-dia e de que forma este conceito vai revolucionar o ato médico e seus resultados em curto prazo. 
 
Ainda no século XIX, os censos populacionais dos EUA demoravam até 9 anos para ter seus dados consolidados, desta forma, já no raiar do século XX, o governo americano se viu obrigado a desenvolver ferramentas mais eficientes de consolidação de dados ( Empresas como a IBM foram fecundadas aí ). 
 
Imaginar como era este mundo tão complexo para se obter informações chega a ser divertido para nós: seres modernoides que buscam qualquer coisa instantaneamente no google. Mas vamos lá, consideremos que, para tudo, inclusive na medicina, demoravam-se anos e anos para analisar os dados - epidemiológicos, por exemplo -, e além disso, dado a dificuldade para se obter informações de qualidade à partir destes dados, o número de variáveis e informações era incrivelmente limitado e sujeito a falhas. 
 
Na década de 40, o termo "explosão de informação" já era usado e estimava-se que, em menos de um século, a biblioteca de Yale, por exemplo, teria 6 mil quilômetros de prateleiras, mais de 6 mil funcionários e um número superior a 200 milhões de volumes. Obviamente, nem o futurismo surreal e abstrato de Dalí enxergaria o futuro onde alguém levasse a tal da "biblioteca de Yale" inteirinha, pendurada num chaveiro do carro, dentro de um pen-drive comprado num posto de gasolina. 
 
De lá pra cá: a capital do Brasil mudou, o planeta ficou mais quente e os computadores ganharam vida, diminuindo de tamanho ano a ano e aumentando sua capacidade de armazenamento. 
 
Chegamos finalmente nos anos 80, quando todo o esforço centenário para guardar e organizar melhor as informações invadia de vez e para sempre os lares das pessoas comuns. Estavamos entrando na era da comunicação total e em tempo real. 
 
Daí pra frente - ainda estamos no início deste enorme processo -, começamos a viver os desafios de prover as organizações, corporações e indivíduos com todo tipo de informação que eles desejassem. Tarefa fácil, né? Mais fácil ainda é atender estas demandas com foco nos princípios básicos de desempenho dos sistemas de informação: os famosos "3Vs" ( Volume de dados, Velocidade de dados, Variedade de dados ).
 
Nos últimos 20 anos, a melhoria de desempenho, dos 3Vs, tem sido permanente, quer seja através do incremento exponencial de tecnologias de software de análise destes bancos de dados, quer seja na criação do conceito de "nuvens", onde os dados ficam armazenados e livram as estruturas locais da tarefa de guardar tantas informações. 
 
Big Data é uma realidade nos esportes, nas transmissões esportivas, nos planejamentos governamentais, e tem sido foco estratégico e primordial de praticamente todas as grandes empresas de tecnologia, como a Google, IBM, Oracle, Apple, etc. 
 
Atualmente, já trabalhamos com enormes possibilidades de informação em tempo real, utilizando ferramentas de BI ( Business Intelligence ), ERP ( Enterprise Resouce Playning ) e finalmente a Big Data, que se destaca das demais tecnologias por utilizar sistemas não lineares de identificação de dados, tornando quase infinita as possibilidades de pesquisa. Mesmo assim, não se enganem, estamos ainda engatinhando. Em poucos anos, nossa rotina de trabalho médico será completamente afetada pelo universo das informações sem fim. Quer saber? 
 
"Big Data", muito em breve, proporcionará um modelo de armazenamento de informações onde a possibilidade de cruzamento de dados será realmente infinita, isto é, trocando em miúdos, não mais existirão dezenas de gráficos e tabelas pré-determinados no seu software de trabalho. Com o "Big Data" dos próximos anos, o cruzamento de informações será determinado pelo usuário, como ele quiser, no volume que quiser, envolvendo quantas variáveis ele desejar, e tudo isso em tempo real, imediato. Assim, os "gráficos" serão formatados imediatamente e considerando absolutamente qualquer variável possível. Deu para entender? 
 
Imagine só, ou melhor, imaginemos juntos. Um paciente realiza estudo Doppler de carótidas e você identifica oclusão parcial entre 25-50%. Daí vem o questionamento: qual a chance deste paciente desenvolver um AVC ou mesmo falecer nos próximos anos? Moleza! Entre no sistema e estabeleça os parâmetros de cruzamento de dados, sem nenhuma restrição, e imediatamente você terá acesso a valores percentuais de pacientes com perfil semelhante, comparativos com pacientes de outras localidades, tudo isso baseado em dezenas de milhares de informações de banco de dados formatados em tempo real ao longo de todos os atendimentos, exames Doppler e intercorrências. E não pense que o Big Data é´uma espécie de "livro de consultas", "up-to-date", que te ajuda nas referências bibliográficas, não é isso, o Big Data te fornecerá uma informação de pesquisa em tempo real, com foco exatamente naquilo que você quer saber e com a vantagem de estar relacionado à comunidade do próprio paciente. 
 
Para entender ainda melhor o tamanho da revolução que estamos prestes a testemunhar, pense naquela situação onde você encontra um desafio diagnóstico e questiona: será que existe algum estudo que me tire esta dúvida? Pois bem, com o Big Data, você não mais precisará buscar um artigo de pesquisa feito no passado ou em populações totalmente diferentes. Basta que acesse as informações em tempo real, utilizando critérios de inclusão e exclusão como bem entender ao longo de um infinito banco de dados. Seu trabalho passará a ser o de interpretar as dezenas e dezenas de tabelas e gráficos gerados a partir da sua pesquisa. Por outro lado, certamente existirão "plug-ins" de avaliação imediata da relevância estatística dos dados, etc, oferecendo à sua consulta todo o conforto para não se perder em dados sem valor, garantindo a melhor tomada de decisão em tempo real. 
 
Haverá um tempo, com tecnologias que já existem hoje, onde todas as informações estatísticas serão personalizadas por cada paciente, relacionado ao desejo de cada médico, em tempo real. Hospitais e bancos de dados de saúde se estruturam desde a década de 90 para uniformizar linguagens e protocolos, de modo que as informações médicas possam trafegar entre as unidades sem "gaps" ou perdas. O governo "Obama", nos últimos anos, incentivou de forma decisiva o incremento de tecnologias de integração de dados, e já em 2015 teremos novidades operacionais em produção em vários hospitais dos EUA. 
 
Então, se você acha que estas previsões chegam próximo de algum tipo de ficção científica médica, tudo bem, não te culpo, a bibliotecária de Yale, aquela dos anos 40, acharia a mesma coisa sobre a idéia de um pen-drive pendurado numa chave de automóvel. 

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